domingo, 18 de maio de 2014

Serendipidade

I

Nus, meus pés não sentem frio. Em cada passo, um novo chão.
Sinto cada grão, cada textura.
Sinto o vento, sinto você. E mais coisas que não posso ver.
Sinto tanto, sinto muito. Mais ainda que o mundo.
Sinto nada, sinto cada exagero que desaba
em minha mente, de uma vez só.

II

'In vino veritas'
meu vinho é a vida.
Bebo quando penso.
Exagero quando escrevo,
e bêbado, surgem os sentidos:
duplos, triplos, ambíguos em si.
cheios de se...

 III

Se Kairós é quando o tempo e o espaço convergem para a ação.
Que dirá o coração. Que anda atrasado no tempo e perdido no espaço.
Ainda assim não lhe falta momento oportuno.


domingo, 11 de maio de 2014

Checkmate




As peças já estão no tabuleiro..

E eu não tenho tempo. 
Não que esteja com pressa, Simplesmente não o tenho. Me falta.
Tudo se resume à peça. Assim, bem fatalista.
Sou o rei, o bispo, o cavalo e o peão.
Múltiplas personalidades pra alguém teoricamente são.

Algumas considerações relevantes :

1) As peças em silêncio não se movem
2) Não importa a jogada quando você está disposto a empatar.

Ah se as peças fossem uma só...
Mas não, somos fragmentados, funcionais.
Pego no peão que tenho na frente e te dou..
você me dá seu coração..
Assim, minha mente fica desprotegida ali no canto..
....
1)Estar em silêncio é estratégico, é formal.
É pausa, hífen, vírgula, reticência fechada.
Silenciar é dar um tempo para que o outro jogue, ou para que
você mesmo reorganize suas peças no tabuleiro.

2) Empatar é inevitável. Quanto mais coração,
Menos torres, menos bispos, menos lógica.
As palavras estão no tabuleiro,
não quero me desfazer delas, tampouco superar as suas.
Prefiro um tabuleiro cheio.

Checkmate
o rei está morto, o jogo perdido, a dama só olha
o bispo iludido, o cavalo de tróia, o peão coagido
só volta à caixa mandado ou perdido.

Algum tempo depois
As peças repousam, a mente relaxa..
e voltam completas
e jogam,
e caixa.




sábado, 3 de maio de 2014

Salvador Dalí




I am the time himself, 
in an old watch that is running to stop.

tic tac, knocks my heart.
The door ? i'm still looking for it
Running or not, i'm out
out of the box, 
thinking about the same things..
so far, so good.

I am the watch himself, 
in an old time that is running to stop.
But time is abstract, like an ideia, like love
never ends.





domingo, 27 de abril de 2014

- O estranho caso de um garoto

...


Passos largos, pensamentos compridos...
quase flutuava sobre aquele asfalto molhado.
absorto, imerso, sóbrio.
o som dos automóveis desaparecera há muito
a mulher ruiva, o senhor de camisa xadrez, o casal sentado no banco ao lado
não via nenhum deles.
Ao longe, no horizonte cinza, retangular, o sol se punha, tímido.
Mas o abraçava. Seus raios, trêmulos, tênues, iluminavam o seu lado esquerdo.
o lado do coração.

A rotina passava ao lado, mas já não o tocava.
Naquele momento, tudo era sol, música, ela e Deus. 
A mulher riu, o senhor não viu e o casal sentiu quando o homem,
no auge dos seus 30 anos, sumiu.

Morrera às avessas. 

O sol já tinha ido, quando o menino reapareceu.
Seus cabelos brancos haviam sumido. As rugas, nem sequer existido.
Prendeu o fôlego, e com um só suspiro devolveu todas as preocupações para fora
para o horizonte cinza escuro que se estendia à sua frente.
Um riso contido no canto do lábio indicava o que seus olhos já denunciavam há horas :
Uma alegria infante, quase que suspeita, irracional.
Irradiava em seu coração, preenchia seus pulmões, anestesiava sua mente.
Ele próprio virara sol, e todas as outras 6 notas.

Tinha essa estranha habilidade, o garoto.
Transformar rotina em raridade, cinza em azul celeste, poente em nascente.
Não era incólume às preocupações, decepções, mentiras, ruídos
Envelhecia a cada golpe, por dentro.
No seu mundo interior, chegava aos 30, em quase uma semana, mesmo tendo 20.
Ainda assim, desenvolvera, não se sabe como, um jeito de burlar o inevitável.
talvez fosse o sol, a música ou ela.

Ela era linda, e estava presente nos seus dois mundos
Assim como a música, mas de forma mais intensa, menos lógica.
"Deus meu, obrigado."
e o som dos carros crescia gradualmente,
a mulher ruiva, o senhor de camisa xadrez e o casal no banco haviam passado.
mas ele não. Ele permanecia.

Era tarde da noite e as estrelas deslizavam pelo céu
enquanto o garoto se viu em frente a casa.
Apertou a campainha uma só vez, talvez nem fosse preciso.
A porta se abriu e ele sorriu mais uma vez.

sábado, 12 de abril de 2014

Diálogo I

      ...

r - Alô ?
c - Alô, sou eu.
r - (suspiro), não quero mais saber de você..
c - Eu sei.
r - Então por que ligou ?
c - Não pude evitar.
r - (respira fundo), não podemos mais ficar juntos, não depois do que aconteceu.
c - mas, mas.. eu nasci para estar com você.
r - Não vem com essa. Falácia !
c - o que significa isso ?
r - vês ? é disso que estou falando. Somos completamente diferentes.
c - E qual seria a graça se a gente fosse igual ?
r - Não é pra ter graça. Um relacionamento exige maturidade e equilíbrio.
c - ...e também sensibilidade e compreensão.


r - Se eu for levar em conta todas as suas opiniões, serei um tolo! 
c - Se não levar nenhuma, vai estar sozinho.
...
c - a razão não é auto-suficiente. Vc tem limites. Sozinho, vc tira a emoção da vida.
r - Você acabou de citar Pascal e Nietzsche.. na mesma frase.
c - (riso bem baixo) eles tinham coração. Aposto que eram amáveis e engraçados.
r - (riso contido), você tem que ler mais..


c - Alô ? ainda está aí ?
r - estou pensando..
c - não pense muito.
- (suspiro longo) tudo bem. 
- tudo bem o quê ?
r - vamos falar pro garoto que ela é a garota certa.
c - e aquele papo de que "precisamos estudar, trabalhar..", "ela nem é do meu tipo", "não tenho tempo."?
r - deixa pra lá, daremos um jeito.
c -  já dizia um velho ditado : O coração tem razões que a razão não conhece.
- ..Pascal de novo.. e é engraçado que você só lê o que lhe convém...
c - não enche o saco.

(razão e coração)





quarta-feira, 2 de abril de 2014

Melhor hora do dia


A meia noite, tudo corre.
Deitado, já não tenho mais os pés no chão.
É quando o sonho vem antes de dormir e, ao fechar os olhos,
processamos todo esse caos. A razão vai se misturando.. diluindo.
E caímos em nossas ideias.. mais do que isso.. nos tornamos uma.
Ao contrário de quando estamos atuando, ao dormir os seus sentimentos negam você e não o contrário.
O palco é deles, e você é mais um na peça.
Não somos personagens. Somos texto, versos e interpretações.

De noite, tudo passa mais devagar.
Aí está a ironia..
A luz do quarto se apaga e somos obrigados a olhar para dentro.
Reviramos tudo em busca de algo ou alguém.
A noite segue e sempre dou um jeito de olhar pra cima.
"Pensamentos são estrelas que não consigo arrumar em constelações"
brilham de tal forma, que mesmo a noite, podemos ver tudo.
.refletimos.
E quanto mais vamos para dentro, mais expandimos.
Tudo parece possível e é mais um daqueles momentos em que você parece infinito...
...e é.

O fato é que
apontamos para o céu e não percebemos que as estrelas estão aqui do nosso lado.
E quantas delas passam desapercebidas.
Já cheguei a ver milhões de uma só vez em um olhar.
bilhões ao pensar nisso essa noite.

A melhor hora do dia é aquela em que você decide olhar para dentro, por um instante,
e assim, vendo um universo inteiro, nota uma estrela que seja.
 E a faz uma constelação.. 

..no seu próprio coração!


domingo, 16 de março de 2014

Ilhas


Onde estão as pontes ?
Andei
E ao estreitar meus olhos vi ilhas,
elas sempre estiveram lá.
De todas as formas e tamanhos
com suas próprias leis e costumes.
E o mar, um só.
Alimentando, dividindo e dando forma.

Agora, estou em um ponto alto
Todas as ilhas possuem um lugar assim.
Quando subo, fico fascinado pela visão de
outras pessoas fazendo a mesma coisa.
Não são muitas, seja porque a maioria está
ocupada com seus afazeres no centro ou pelo
incômodo da subida.

Daqui, tem-se uma noção geral de tudo!
Ontem, vi uma garota em uma ilha próxima.
Ela lia um livro, observava o mar, as ilhas, as estrelas..
..fiquei atônito. Acenei. Ela sorriu, se deu conta de algo e correu.
Ela tinha uma história e eu até que queria fazer parte dela.
Mas isso foi ontem..

..daqui, vejo pontes e muros. Eu mesmo já construí alguns. Mesmo que
mais seguras, as ilhas muradas tendem a desaparecer, aos poucos e
de dentro pra fora. Pelo menos foi o que eu li em algum lugar.
A maioria culpa o mar.
Alguns poucos, as ilhas.
Hoje, eu só observo. E me vejo olhando, de vez em quando,
para aquela ilha próxima, na busca por mais um sorriso.